24 de Dezembro de 2011
27 de Maio de 2011
Oviedo, Espanha, 08 de Abril de 2010
O postal de hoje será escrito em formato de telegrama porque me falta tempo para poder entrar nas habituais descrições e reflexões.
Em Oviedo, andei atrás das construções do estilo asturiano. Porém, em vez de uma igreja, hoje escolhi publicar o desenho do Palácio de Naranco, situado numa colina com vistas panorâmicas sobre a cidade. Esta era uma das obras que me encantava ainda antes de a ter visitado - gostava do aspecto compacto, de caixa, do edifício. A marcação vertical dos contrafortes, os vãos de volta perfeita e os medalhões suavizam a agressividade geométrica do volume e conferem um toque de delicadeza e proporção à construção. E, claro, a paisagem também ajuda ao seu enquadramento...
Passando por Oviedo, a colina de Naranco é, sem dúvida, um sítio a visitar.
30 de Abril de 2011
Santa Cristina de Lena, Espanha, 07 de Abril de 2010
O segundo dia da minha viagem pela arquitectura pré-românica do noroeste de Espanha levou-me ao Mosteiro de San Miguel de Escalada, na província de Léon, e à Igreja de Santa Cristina de Lena, perto de Oviedo. Embora a igreja moçárabe do primeiro impressione pela sua extraordinária simplicidade e depuração, o enquadramento absolutamente cenográfico da segunda tornou a sua visita no ponto alto do dia.
Isolada no topo de uma colina, com um vale verdejante aos seus pés, Santa Cristina de Lena sobrepõe o seu rigor geométrico aos altos picos asturianos que, envoltos em nevoeiro, compõem o seu plano de fundo. O percurso de chegada - não mais do que um caminho em terra - serpenteia pela encosta, apontado à cabeceira da igreja. E, no dia em que lá estive, a qualidade pitoresca do lugar era ainda mais acentuada pela presença de três ovelhas a pastar. Não resisti a representá-las no desenho que ilustra este postal - mas, porque a distância e a falta de jeito as reduziu a pouco mais do que umas figuras informes, está escrito ao lado do arbusto em primeiro plano um entusiasmado "ovelhas!", para que não me esquecesse da poética daquela cena...
31 de Março de 2011
Santiago de Peñalba, Espanha, 06 de Abril de 2010
O postal de hoje inaugura uma nova série de publicações, referente a uma viagem de seis dias pelo norte de Espanha por volta da Páscoa de 2010. Porém, há um importante pormenor que distingue esta sequência de todas as anteriores: os postais serão ilustrados exclusivamente por desenhos, produzidos como um exercício académico no âmbito de História da Arquitectura Portuguesa.
[Imagino uns pontos de interrogação a aparecerem na cabeça dos leitores... O que é que uma viagem pelo norte de Espanha tem a ver com arquitectura portuguesa? Bem, os exemplos de arquitectura pré-românica do norte da Península Ibérica são considerados determinantes para a configuração da arquitectura medieval portuguesa.]
Nem sempre me é fácil desenhar, de tal modo que, para conseguir levar a cabo a tarefa, não me atrevi a pegar na máquina fotográfica sequer uma vez. Ora, tal implica que, mesmo que agora quisesse fugir aos desenhos de qualidade mais duvidosa, não teria fotografias para mostrar... Feito este aviso prévio, passo então ao primeiro ponto de paragem desta rota do pré-românico: a aldeia de Santiago de Peñalba, próxima de Ponferrada.
A estrada para lá chegar é estreita e tortuosa, pendurando-se sobre os penhascos do Vale do Silêncio (ah!, e como o nome lhe fica bem!). Porém, se o percurso em si já é interessante o suficiente, Santiago de Peñalba é absolutamente impressionante: enclausurada no meio de montanhas nevadas, a aldeia é composta por casas tradicionais exemplarmente recuperadas, aglomeradas em torno de uma igreja de origem moçárabe. O desenho acima pretende representar justamente uma das ruas que desembocam na igreja de Santiago, captando o seu alçado lateral emoldurado pelo penhasco em segundo plano.
24 de Março de 2011
Freixo de Espada à Cinta, Portugal, 13 de Fevereiro de 2010
Não tinha a intenção de seguir o postal anterior com outro de Freixo de Espada à Cinta mas, enquanto reúno o material para a próxima série de publicações, decidi retornar à vila transmontana. Considerando que o tema do postal prévio foi um postigo - e o frio, o frrrrio! - e não Freixo de Espada à Cinta, confio que evitarei o perigo de cair na repetitividade.
O motivo da minha passagem nesta vila pode ser sintetizado nas seguintes palavras: História da Arquitectura Portuguesa. A proposta era fazer um trabalho prático de investigação sobre uma obra de arquitectura portuguesa, e, ao avaliar a lista de edifícios e conjuntos urbanos pré-seleccionados, a minha atenção deteve-se na Igreja e Hospital da Misericórdia de Freixo de Espada à Cinta. Nunca antes tinha estado lá, mas o nome - a sugestividade de Freixo de Espada à Cinta - seduzia-me. Fiz uma pesquisa de imagens no Google. A vila tinha vestígios de um castelo. A igreja parecia pequena, compacta. Por que não? Convenci o meu grupo e, assim, passei os oito meses seguintes a pesquisar, investigar, especular sobre tudo o que estivesse ligado a Freixo de Espada à Cinta e à Misericórdia. Fortificações medievais. Igrejas quinhentistas. Igrejas da Misericórdia. Umas gravuras da vila em 1500 (rai's partam o Duarte D'Armas!). Arquitectura Manuelina. Arquitectura Biscainha. João de Castilho. Janelas e portais. Hospitais. O milagre do Cristo suado.
Pelo meio, houve tempo para três visitas a Freixo de Espada à Cinta. A imagem acima data da terceira e última mas é a impressão formada na primeira que perdura. Ainda hoje, quando penso em Freixo, recordo de imediato o estado de desleixo da vila. O valor histórico do conjunto urbano é inegável mas, entre tantas construções com ar clandestino, mal acabado, em avançado estado de degradação, é difícil apreciar os vestígios patrimoniais que ainda resistem. Havia, aliás, há potencial - mas tudo parece ficar por promessas a cumprir. Até a Igreja da Misericórdia não escapa ao destino comum: são paredes de granito degradado, a esboroar-se ao toque dos nossos dedos, que suportam (até quando?) a magnífica abóbada nervurada da capela-mor.
Apesar de tudo, porém, não consigo deixar de sentir um carinho especial por Freixo de Espada à Cinta. E gosto da imagem que ilustra este postal por mostrar a vila altiva, com a Torre do Galo a sobressair no perfil, olhando de cima a paisagem ondulada - por mostrar o potencial, e não as falhas.
13 de Fevereiro de 2011
Freixo de Espada à Cinta, Portugal, 13 de Fevereiro de 2010
Há precisamente um ano atrás, eu estava em Freixo de Espada à Cinta. E estava frio - muito, muito frio. Tanto frio que, após duas horas de máquina fotográfica em punho, simplesmente perdi a sensibilidade no dedo indicador para pressionar o obturador. Andar por Trás-os-Montes durante uma onda de frio polar tem destas coisas...
Felizmente, não foi nada que não se recuperasse com um bocado de água quente e a fricção das palmas das mãos. E digo felizmente porque foi o que me permitiu captar a imagem que ilustra este postal. Depois de uma manhã inteira passada a fotografar janelas e portais manuelinos com entalhes magníficos, é curioso que tenha sido esta fotografia de um postigo anónimo a perdurar como a minha favorita.
31 de Janeiro de 2011
Voltar a casa
[Um parêntesis]
Como seria de esperar de um blogue sobre viagens, os postais têm-se conjugado com o verbo ir e raramente com o voltar. Não há mistério algum nisto: a essência de viajar reside nesta palavra de duas letrinhas apenas. Ir é deixar um lugar rumo a outro. Ir é buscar o que nos espera lá fora: fora de nós, fora do nosso habitat natural. Ir - devagar ou depressa, até ao fundo da rua ou ao outro lado do planeta - é fazermo-nos ao caminho na ânsia de vermos o mundo, de descobrirmos lugares e pessoas, cheiros e sabores.
Contudo, a segurança na acção de "ir" está frequentemente, senão mesmo sempre, dependente de termos para onde voltar. Tal como numa tira de Möbius, o ponto de chegada do ir não é mais do que o próprio ponto de partida - o destino último será também o primeiro. A palavra casa representa simbolicamente este duplo ponto de partida e chegada: reduzida ao seu significado essencial, denomina o centro a partir do qual nos situamos no mundo. Porém, como seres complexos que somos, não classificamos como casa apenas o lugar onde vivemos ou nascemos... Pelo contrário, ultrapassamos a acepção geográfica e arquitectónica do termo para nele incluir também tudo o resto que nos serve de âncora - falo da família, dos amigos, enfim, dos laços emocionais que fazem de nós algo mais do que figuras errantes a vaguear pelo mundo.
Durante treze anos, tive à minha espera em cada regresso um pedacinho de casa com quatro patas e um focinho. Agora, o reflexo de olhar para o fim da rampa ao chegar ainda permanece mas já não há cão pendurado no muro, pronto a ladrar em sinal de reconhecimento.
Ironicamente, está encontrada a excepção que confirma a regra: a morte é o ir sem o voltar, a viagem sem o inerente regresso.
Adeus orelhudo.
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