
A bordo do Lusitânia Express Hotel - que nome tão pomposo, não é? -, e de regresso a Portugal, dei por mim com saudades do chão duro e frio das estações de Milão. Porque, para um comboio que viaja durante a noite, garanto que é impossível ter umas cadeiras mais desconfortáveis - antes os comboios de leste, onde, apesar dos couros rasgados dos bancos e o aspecto geral de decadência, se conseguia dormir uma noite inteira.
Chegámos a Coimbra ainda antes das seis da manhã. Na sala de espera estava um senhor idoso, com um nítido problema de incontinência. O cheiro intenso a urina convenceu-me a deixar o quentinho da sala de espera para dormitar um pouco nos bancos de madeira exteriores. Com o pequeno-almoço tomado, subimos de mochila às costas até à Universidade de Coimbra.
Descemos novamente em direcção à estação e apanhámos o comboio para Aveiro, onde fomos almoçar ao Fórum Aveiro. Em ano de Jogos Olímpicos, custou-me imenso perder a maioria das competições - mas chegámos a Portugal no dia certo para, enquanto almoçávamos, vermos o Nélson Évora subir ao lugar mais alto do pódio de Pequim.
De Aveiro levei o único 'presente' para a minha família: uma caixa de ovos moles. Tendo em conta que o meu pai é diabético, que o meu irmão não gosta especialmente de doces e que o primeiro postal de Paris já deixou claro que estou em vias de ir para o Inferno por gula, está-se mesmo a ver que foi uma prenda mais para mim do que para eles... Que filha e irmã desnaturada! Um mês fora, a fazer férias à custa dos paizinhos (vá, ainda contribuí com uns cobres ganhos à custa da Universidade), e volto sem um único presente! Felizmente, ainda vou tendo uma família porreira, que não sofre com as febres do consumismo ou dos "souvenirs", "recuerdos" e afins.
A viagem de Aveiro para o Porto ficou marcada sobretudo pelo grande número de pessoas que vinha da praia - o comboio ia cheio. Contudo, ainda deu para apreciar o espectáculo oferecido pela travessia da Ponte de S. João. Chegados a S. Bento, e agora tão perto de casa, preocupámo-nos apenas em apanhar o comboio seguinte para Braga. Apesar de todos os dramas deste interrail, sei que poderia ter seguido de viagem mais um mês; para para os meus companheiros de viagem, o reencontro com a família foi, acima de tudo, marcado pelo choro dos dois lados. Mais um bocadinho e parecia que tínhamos ido para guerra - e durante dois anos, pelo menos - do que de férias...
Para mim, este interrail não foi uma história exactamente feliz. No entanto, tenho por objectivo a curto prazo voltar a pegar na mochila e sair de novo Europa fora, com a vantagem de agora saber duas coisas essenciais: em primeiro lugar, que mais de três ou quatro pessoas é demais; e, em segundo lugar, que é preciso ter a certeza que os objectivos de viagem são os mesmos.
Fim. The End.